Você já ouviu alguém dizer “mulher no volante, perigo constante” ou “ela só conseguiu esse cargo porque é bonita”? Essas frases carregam algo muito mais sério do que um simples preconceito: elas escancaram a misoginia, uma forma cruel de ódio, desprezo ou discriminação contra mulheres.

Infelizmente, a misoginia não é apenas uma opinião ultrapassada ou uma piadinha de mau gosto. Em muitos casos, pode se configurar como crime sim, principalmente quando vem acompanhada de agressões, ameaças, humilhações públicas ou qualquer ato que viole os direitos das mulheres. É por isso que precisamos entender de vez o que é misoginia, como ela se manifesta no dia a dia e quando ultrapassa o limite da lei.

Neste artigo, você vai descobrir o verdadeiro significado da misoginia, os comportamentos mais comuns ligados a esse tipo de ódio, os exemplos práticos que muita gente finge não ver e, principalmente, o que a lei brasileira diz sobre isso.

O que é misoginia?

A misoginia é o ódio ou aversão contra mulheres, enraizado em crenças machistas, culturais ou religiosas. Ela pode se manifestar de forma sutil, com piadas e julgamentos, ou de forma extrema, com violências físicas, psicológicas ou até feminicídio.

Ela não se trata apenas de desrespeito. É uma postura hostil, constante e sistemática que busca rebaixar, inferiorizar ou silenciar mulheres só por serem mulheres.

Diferença entre machismo e misoginia

Embora caminhem juntos, não são a mesma coisa:

  • Machismo: conjunto de comportamentos, ideias e práticas que colocam o homem como superior.
  • Misoginia: sentimento profundo de ódio ou desprezo contra mulheres.

Ou seja, todo misógino é machista, mas nem todo machista chega ao ponto do ódio declarado. O machismo muitas vezes aparece como “cultura”, “tradição”, já a misoginia age com violência, ódio e desprezo.

Misoginia é crime no Brasil?

Sim, em diversas situações a misoginia pode ser tratada como crime. O Brasil não tem uma lei chamada “Lei da Misoginia”, mas existem diversas legislações que protegem as mulheres de atos misóginos. Veja alguns pontos importantes:

1. Lei Maria da Penha

Criada em 2006, protege a mulher da violência doméstica e familiar, seja ela física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral. Se a misoginia ocorre em casa, em relacionamentos ou família, a Lei Maria da Penha se aplica com força total.

2. Lei do Feminicídio

Desde 2015, o Código Penal reconhece o feminicídio como homicídio qualificado, quando o assassinato de uma mulher é motivado por razões da condição de sexo feminino. Isso geralmente envolve misoginia extrema.

3. Crimes virtuais e ofensas públicas

A misoginia nas redes sociais, como comentários ofensivos, perseguições, ameaças ou divulgação de conteúdo íntimo, também pode ser enquadrada como crime de injúria, calúnia, difamação ou até importunação sexual.

4. Discriminação por gênero

Desde 2023, o STF reconhece que misoginia se enquadra como crime de ódio, da mesma forma que o racismo. Isso significa que manifestações misóginas em público, na internet ou em discursos podem ser consideradas crime inafiançável e imprescritível, como o racismo.

Exemplos reais de misoginia

A misoginia está em toda parte. Às vezes, ela é descarada. Outras vezes, é camuflada como “cultura”, “tradição” ou “piada”. Veja exemplos comuns e chocantes:

No trabalho:

  • Negar promoção para mulheres porque “vão engravidar”
  • Interromper falas de mulheres em reuniões
  • Dizer que mulheres são emocionais demais para cargos de liderança
  • Assediar funcionárias e depois dizer que “foi só um elogio”

Na vida social:

  • Criticar mulheres que bebem, dançam ou têm vida sexual ativa
  • Chamar mulheres de “interesseiras”, “barraqueiras” ou “fáceis”
  • Repetir que “mulher bonita não precisa estudar”

Nas redes sociais:

  • Comentários de ódio em perfis femininos
  • Vazar fotos íntimas para humilhar
  • Chamar ativistas feministas de “feminazis”
  • Perseguir mulheres que denunciam abusos

Em relacionamentos:

  • Controlar o que ela veste ou com quem fala
  • Impedir que ela trabalhe ou estude
  • Bater ou ameaçar quando ela tenta sair da relação
  • Culpá-la por abusos sofridos

Esses são só alguns dos muitos exemplos. Em todos eles, o ponto central é o desprezo pela autonomia e dignidade da mulher.

O impacto da misoginia na vida das mulheres

A misoginia não é só ofensiva. Ela adoece, isola e pode até matar. Seus efeitos são profundos e duradouros, especialmente quando se somam ao racismo, homofobia, gordofobia ou transfobia.

As consequências mais comuns incluem:

  • Ansiedade e depressão
  • Transtornos de autoestima
  • Medo de se expressar
  • Baixo desempenho profissional ou acadêmico
  • Suicídio em casos extremos
  • Violência física ou feminicídio

Além disso, a misoginia afeta toda a sociedade. Ela mantém desigualdades, alimenta o ciclo de violência e bloqueia o avanço das mulheres em todos os espaços.

Como denunciar atitudes misóginas

Se você for vítima ou testemunha de misoginia, denunciar é um ato de coragem e proteção. Veja onde buscar ajuda:

  • Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher
  • Delegacia da Mulher – Especializada em crimes contra a mulher
  • Aplicativos de denúncia anônima, como “Direitos Humanos Brasil”
  • Ministério Público ou Defensoria Pública do seu estado
  • Redes sociais – Denuncie publicações ofensivas diretamente nas plataformas

Guardar o máximo de provas (prints, áudios, mensagens) ajuda muito no processo.

E quando vem de mulheres?

A misoginia não é exclusividade masculina. Muitas mulheres também reproduzem discursos misóginos, por medo, por influência familiar ou porque foram educadas nesse sistema.

Frases como:

  • “Ela não se dá ao respeito”
  • “Mulher tem que saber o seu lugar”
  • “Se apanha, é porque gosta”

são exemplos claros de como a cultura do ódio pode ser internalizada por quem também sofre com ela.

Isso não justifica, mas mostra como o machismo afeta a todos, inclusive as próprias mulheres. Por isso é tão importante dialogar, desconstruir e reeducar.

Como combater a misoginia no cotidiano

A mudança começa no dia a dia. Mesmo atitudes pequenas ajudam a criar um ambiente mais justo, igualitário e livre de preconceito.

Ações práticas para combater a misoginia:

  • Não repita piadas machistas
  • Questione comentários ofensivos
  • Dê voz às mulheres ao seu redor
  • Incentive o protagonismo feminino
  • Ensine meninos a respeitar e não controlar
  • Apoie movimentos feministas
  • Não silencie casos de assédio ou abuso

Toda vez que você escolhe respeitar, ouvir e apoiar uma mulher, você enfraquece a misoginia e fortalece a equidade.

O feminismo como resposta

Se a misoginia é o ódio às mulheres, o feminismo é a luta pela igualdade entre os gêneros. E ao contrário do que muitos dizem, feminismo não é o contrário de machismo. Ele não busca inverter opressões, e sim acabar com elas.

O feminismo combate a misoginia ao:

  • Denunciar abusos
  • Dar voz às vítimas
  • Lutar por leis mais justas
  • Promover igualdade salarial
  • Garantir acesso à educação e saúde

Mais do que um movimento político, é uma ferramenta de libertação e sobrevivência.

Resumo: misoginia é crime, sim!

Seja no ambiente doméstico, nas ruas ou na internet, a misoginia tem consequências reais, profundas e muitas vezes trágicas. E sim, ela pode e deve ser tratada como crime, principalmente quando atinge a dignidade, a liberdade ou a integridade física das mulheres.

É dever de todos – homens e mulheres – reconhecer, combater e denunciar atitudes misóginas, não importa de onde venham. Só assim construiremos uma sociedade onde ser mulher não seja um risco, e sim motivo de orgulho.

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